Estava a amanhecer. Depois de uma noite passada na expectativa de voltar a sentir o tempo intemporal, depois de ter devorado quase um livro inteiro, depois de ter quase caído na tentação comum do sono, estava, finalmente, na altura.
Tal como nos anos anteriores, passava férias numa zona remota do país, uma terra campestre. Adorava aqueles sítios; além de citadino de nascença, era selvagem de alma.
A impaciência chegara ao fim, o mundo chegara ao fim.
Nada mudava desde então. Perfeição imaculada, pura, adormecida, beleza crua e estática. Era assim que se lembrava e era assim que queria contemplá-la.
Vestiu uma camisa de seda branca a prolongar o seu cabelo escuro e comprido. Estava tudo em silêncio, calmo, uma verdadeira paz. Saiu de casa, abriu o portão e sentou-se no meio da terra batida. Olhou em redor. estava claro, com uma neblina matinal. No horizonte, as ventoinhas eólicas, ou melhor, os mastros sem fim definido. Em frente, um caminho a serpentear por entre dois campos secos, já ceifados, protegidos por uma vedação. Um com uma depressão no meio; o outro, escondido da vista por um montículo de terra.
Ficou. Nada mudou, nada se ouviu, nada se moveu entre as brumas matinais e a pálida e recém-chegada luz. Era tempo fora do tempo.
Viu-se um rebanho (talvez vinte?) a sair da neblina e a dirigir-se lentamente para o campo do vale. Estava cada vez mais e mais perto, sob o seu olhar vazio. Reparou num vulto, vestido de preto, que as vinte ovelhas arrastavam. Também ele vinha na sua direcção. Revelou-se uma mulher, idosa, claro, uma pastora. Trocaram poucas palavras. Nada mudara.
A pastora abalou dali, recomendando que vigiasse as ovelhas para não desflorestarem a horta. Deixara o rebanho à sua mercê.
Ficou assim durante um bom bocado. O rebanho aproximou-se, fitou com um olhar avaliador de perigo. Estavam a preparar-se para arrasar a horta. Enxotou-as com a sua presença deambulante, até que se afastaram. Moveram-se para outro campo, chefiadas por uma anarquista. Lentamente, foram desaparecendo como uma gota de água a escorrer. Lentamente, desapareceram do seu campo de visão.
Nada tinha mudado.
Ficou… A eternidade sem pensamentos, a contemplar a adormecida Natureza, quando algo preocupou o seu transe apático.
Levantou-se e foi ver o seu rebanho. Não estava lá, pelo menos, todo. Algumas gotinhas corriam atrás da gota de água. Correu, a ver onde elas iam dar. Encontrou a extremidade do campo, do lado direito, vedado por silvas, do lado esquerdo, vedado por arames, em frente vedado por arames e silvas a limitar uma floresta de sobreiros. A entrada (ou saída) para a floresta estava escancarada. E só se viam umas réstias do seu rebanho em direcção à floresta.
Seria suposto aquilo acontecer? Deveria ir atrás delas? Ou seria melhor voltar para trás e fingir que nada tinha acontecido?
Decidiu ir atrás delas, não sabendo muito bem o porquê daquela escolha.
O terreno era matreiro; altos aqui, baixos acolá, terra revoltosa, terra rija. Contudo, correu com determinação como por amor do seu rebanho… Não se estatelou no soalho selvagem, graças à acção divina e, assim, chegou a um pequeno vale onde um caminho serigaitava ao longo dele, de tão preguiçoso que era. A floresta de sobreiros a continuava no lado de lá. As vinte ovelhas estavam a percorrê-lo e, como é óbvio, sua excelência de camisinha de cetim tinha que ir atrás. Passou por sobreiros jovens, supôs, que mais pareciam podres com o passar de milénios, e por uma casa, uma casita vá lá, semi-construída ou semi-destruída.
Depois de passar a casa, o vale alargou a sua bacia como a deixar entrar mais da luz pálida da manhã. Abriu-se num pequeno pasto silvestre, ao abandono, onde o rebanho repousou para reabastecer os seus depósitos biológicos. Não teve compaixão pelo repouso, já que tinha de cumprir a missão de as repor nos dois primeiros campos. Rodeou-as, de maneira a que, com a sua presença como motor, as incentivasse a voltar para trás. Por momentos, tudo parecia correr bem, até que a gota se dividiu em duas.
Uma continuou a correr pelo seu percurso pré-feito. A outra, astuta, saltou um riacho que, pelos vistos, havia também a percorrer o vale.
Teve de saltar o riacho, subir a poeirenta encosta e ir atrás da desamparada semi-gota, para a juntar de novo à gota-mestra que já ia mais adiantada.
Por fim, elas deram a volta e juntaram-se de novo num único rebanho. Correndo freneticamente, com as calças e as "All Star" (supostamente pretas) já castanhas do bedum da mistela de lama, pó, espigões e ervas, para não as voltar a perder de vista, conduziu-as para umas planícies, no fim do vale. Umas planícies… adivinhem de quê? De urtigas, é claro. Um mar delas até, o campo coberto por uma martirizante manta de urtigas e silvas.
Um verdadeiro campo em poisio, convenhamos.
Não tinha outra escolha, as ovelhas andariam em frente quer fosse a acompanhá-las quer não. E como o prometido é devido, lá mergulhou no oceano agonizante de arame farpado biológico. Enquanto supervisionava o percurso do seu rebanho, que também estava em agonia (bastava ver a incerteza e hesitação como também a velocidade a que elas andavam), reparou que aquele campo em poisio era afinal habitado… por infindáveis montanhas de insectos irritantes e, por vezes, perigosos, dos "bzzzs bzzzs".
Enquanto tentava manter a concentração no percurso das suas ovelhas, também se picava, quer nas plantas quer nos insectos.
Por fim, chegaram ao desfecho do seu tormento e estavam de novo nos pacíficos e inocentes campos do início, ou melhor, no campo da depressão. Por fim, terminara o seu serviço, de guarda de ovelhas, de guia. Ou será que não?
Não parou para descansar, não descansou as suas fatigadas pernas depois daquele esforço todo. Em vez disso, precipitou-se para o outro campo (o do montículo).
Era a mesma madrugada. O mesmo silencio e paz. Nada mudara.
Foi até ao portão escancarado e, com algum esforço de esticões e empurrões, fechou-o. Ficou uns momentos a olhar para a floresta e, antes de se virar suspirou baixinho:
- Pronto… Já está…