Numa delicada noite de plena primavera, nascera (assim como tantos outros) um menino que ao contrário dos outros não chorara como é normal os recém nascidos chorarem como sinal de que estão vivos e requerem toda a atenção. Ora esse menino não chorara, em vez disso abrira os escuros e enormes olhos e ficara a observar calmo, com uma respiração regular através daquele adorável narizinho próprio dos bebés, a sala de parto, as pessoas mascaradas a olha para ele na expectativa de o ver chorar e a sua mãe sobre efeitos analgésicos deitada com as pernas abertas. Nesse mesmo momento o menino rira-se e nunca chorara. Após várias horas da recuperação da anestesia, a mãe do menino acordava sob o estranho mas reconfortante olhar do pequeno recém-nascido. Estava já a mamar muito dócil e delicadamente pela teta de modo a não a magoar. As pequenitas e rosadas mãozitas a acariciarem os macios e descorados seios fizeram com que a mãe corasse de espanto como de embaraço.
Este não foi de longe o mais estranho acontecimento da vida desta inocente criança. Durante os dias de recuperação no hospital, os inquilinos nunca chegaram a ouvir a voz do menino. Nem um gemido, nem um grito, nem um choro, nem sequer um suspiro saiu por aquela boquita constantemente cerrada. Só a abria para muito delicadamente mamar.
Nem mesmo depois de sair do hospital a criança se dignou ao trabalho de emitir qualquer som. Não usou chupeta, nem mesmo biberão durante a sua infância, só mesmo o leite materno retirado directamente das tetas da mãe.
Dois anos passaram, três, quatro, sem que o menino fizesse qualquer tipo de progressos a não ser fisiologicamente. Nessa altura o casal passava por dificuldades e, a dado dia, quando a mãe o tinha deitado no berço, o casal discutira ao ponto de o pai sair de casa fulo e a mãe se deixar cair no sofá a desmanchar
O resto, … o leitor deve ter imaginação suficiente para construir a sequência de acontecimentos… não é verdade? Bom, avancemos.
Por esta altura o menino já tinha os seus 7 anos. Com os seus pais divorciados, vivendo com a sua mãe impulsivamente stressada e com um pai ausente, o menino mostrava-se cada vez mais peculiar e estranho, em nada provocados pela situação familiar. Pelo contrário, não se parecia em nada com a família, isto em termos psicológicos atenção. O menino era de facto o amor em carne e osso, um amor (in)quieto. Com aquelas ternuras de duas pérolas negras que mais pareciam olhos sempre a observarem o vazio fantástico.
Na escola, maior parte das vezes passava despercebido, quer pela sua quietude quer pela sua passividade nas brincadeiras com os colegas. Assim, era costume vê-lo a passear-se pelo recreio, estar horas a fio imóvel a observar um carreiro atarefado de formigas, apanhar folhas secas para fazer delas o que a sua criatividade ditava, ou simplesmente a apreciar a brincadeira dos outros. Foi numa dessas ocasiões que um dos seus colegas ao correr desenfreadamente, com um riso de ponta a ponta na cara emitindo estridente gargalhadas, tropeçou e espalhou-se ao comprido no chão irregular de betão maciço.
Lógico, que o desastrado do rapaz ficou com os joelhos e as palmas das mãos e carne viva e lógico ainda que o miúdo desatou a berrar de dor, espanto e terror do desastre que se abateu sobre ele.
Instantaneamente criou-se um círculo em volta do pobre coitado, muitos sem saber o que fazer ou dizer, ainda mais só pela curiosidade e pelo divertimento de ver uma coisa nova. No meio disto tudo, a miudagem nem se dá conta do rapazito que passa por entre eles calma e serenamente, com destino ao centro do irregular círculo. Chegado ao centro onde se formava uma barreira invisível entre o aleijado e o resto da turma, agachou-se ao mesmo nível do pobre caído. Sem pestanejar, tremer ou hesitar, os seus olhos encontraram-se com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar. Sem dizer uma palavra no meio daquele chinfrim todo, os dois estabeleciam um diálogo sem palavras, um elo entre olhares. Já se faziam ouvir as vigilantes por cima do burburinho infantil quando o menino de olhos de pérolas acariciou os joelhos esfolados com as suas macias e fraternais mãos.
Quando uma das vigilantes mais favorecida desbaratou por fim o ninho de crianças, o suposto caído estava de pé, alheado, branco como cal, mas… intacto. Logo vieram as perguntas do que é que se tinha passado para haver aquela chinfrineira. O miúdo cor de cal nada disse, os restantes, também, com o espanto da ilusão que se criara. No entanto, os olhos de pérola encontravam-se inocentemente num canto sombrio e ninguém deu por ele.
Mais um salto no tempo se deu, sem muito que se lhe diga. Até ao menino fazer os seus 14 anos. Nessa altura o menino, ou melhor o rapaz, não era mais do que um aluno medíocre, não se fazendo notar quer pela positiva quer pela negativa. No entanto continuava um amor de pessoa, obediente e simpático sempre que se dirigiam a ele. Mas isso só acontecia se se dirigissem a ele. O resto do tempo ninguém o via, apesar de ele estar mesmo ao lado a dormitar debaixo das arvores, ou brincando e amando os vadios desprezados da cidade.
Como é sabido, a idade que o rapaz estava a passar é conhecida como a idade do armário, onde se verifica um crescimento exacerbado das fisionomias que nos tornam homens e mulheres e se confere igualmente uma regressão no comportamento perante o mundo. Ora na turma do nosso rapaz não havia excepção à regra a não ser o próprio rapaz.
Aliás, o director estava constantemente a receber notificações de como a turma era uma das melhores a arruinar as aulas e os “stor’s”.
Passando adiante as lições de biologia, foi numa desses maravilhosos dias de aulas, a aproximadamente meio do segundo período, onde a idosa professora de matemática com os seus óculos meia-lua na ponta do nariz estava a passar um exercício no quadro ao mesmo tempo que levava com um bombardeamento de papel amarrotado seguido das hediondas gargalhadas desafinadas da generalidade da turma.
A professora já nada fazia, estando à beira de um esgotamento, quando ouve-se um estrondo. Aquela sala nunca conhecera maior silencio do que aquele que se fez depois de o rapaz bater com toda a força na mesa com o seu livro de matemática. A turma inteira ficou boquiaberta com a surpresa, por momentos nem reconhecendo o rapaz.
Toda a turma ficou na expectativa de ouvir o rapaz finalmente berrar e/ou passar-se mas tudo o que ele fez foi olhar para cada um, um a um. Olhares sem qualquer expressão, sem qualquer reprimenda, apenas olhares profundos.
Assim que a professora se concluiu o exercício, virou-se para dar de caras com a turma,… mas uma turma diferente. Uma turma sossegada, que lhe pedia desculpa.
E o rapaz? Esse estava na sua secretaria no seu cantinho como se nada se passasse.
A partir daqui só precisa saber que a turma nunca mais foi a mesma. Não só desceu de ranking das piores turmas, como subiu ao estrelato das turmas exemplares da escola. Um milagre no sistema educativo. Logo que toda a escola se quis igualar com a turma super estrela e, portanto, a escola ficou em primeiro lugar no ranking.
Ora portanto, passados mais 4 anos, o rapaz, que já se fazia homem apenas com 18 anos já entrava para a faculdade com a sua média medíocre.
É verdade que aos 18 anos já se é considerado um homem ou mulher com os seus direitos e deveres. Mas é engraçado com os continuam a tomar por criancinhas, o que, de facto, é apropriado já que, em maior parte dos casos, o armário ainda não os largou.
Mas com este rapaz era diferente, até porque o armário nunca o chegou a apanhar.
Seja como for, foi nesta altura que a mãe morre de overdose de anti-depressivos. Às portas do outro mundo, no hospital, o rapaz sempre esteve ao lado da mãe e no último suspiro, segredou-lhe ao ouvido já sem vida com aquela mesma voz à 11 anos atrás: ”obrigado por tudo mamã, agora descansa” abraçou-a e beijou-a.
Passou a viver nos dormitórios da universidade e continuou a sua vida como se nada fosse. Continuava oculto pela sua passividade e pelos seus estudos suficientes. Foi num desses dias em que estava encostado a uma árvore fora da universidade, a ler um livro com um rafeiro encostado a si. Os dois a saborearem a leve brisa do fim de aulas, quando se ouve um berro e logo dois brutamontes começam à pancada. Ouvem-se gritos quer dos dois lados quer de uma rapariga afastada. Os restantes ficam a observar e alguns tentam separar os dos lutadores. Mal os separam, a rapariga tenta acalmar a situação indo pôr-se à frente de um. Contudo a fúria era tanta pelo adversário que a empurra para o lado. Ela caiu para o meio da estrada quando um carro ia a passar distraído com a bulha que ia ao lado. Por sorte o carro travou mesmo à rasquinha, não por causa da rapariga caída, já que ela estava muito para lá do campo de visão do condutor. Foi o rapaz que se pôs entre o carro e a rapariga com os braços estendidos.
Enquanto o condutor saia do carro fulo e aos berros a mandar injúrias, o rapaz pegou na rapariga e levou-a para junto da árvore onde outrora se sentava. Apenas com um sorriso, virou-se e foi ter com os dois rapazes que lutavam. Agora foi a vez dele se pôr entre eles, mas desta vez nenhum deles o empurrou. Os dois olharam para os olhos de pérola e gradualmente deixaram relaxar os músculos e a cara para, momentos depois olharem um para o outro e partirem-se a rir.
À medida que eles se iam embora com nódoas negras a rirem-se das figuras um do outro, a rapariga olhava boquiaberta de espanto com o rafeiro ao lado, também boquiaberto de calor.
Veio-se a saber depois que os dois lutadores eram melhores amigos e que a rapariga eram namorada de um mas tinha dormido com o outro, enfim banalidades universitárias. O certo é que os dois amigos continuam melhores amigos, senão até mais, e a rapariga namorada do rapaz que a salvara.
Escusado será dizer que o rapaz foi um namorado dedicado e cinco-estrelas além de a rapariga em muitas vezes não o merecer. Quanto ao rapaz não se tinha chateado uma vez nem exigido nada. Apenas gostava de estar abraçado a ela, gostava do cheiro dela, dos beijos dela, amava-a.
Ela vinha-lhe contar todas as maleitas depois de as fazer, e ele, sempre com ar fraternal, perdoava-a. Por fim, a rapariga deu por encerrado os dois anos de namoro e o rapaz nada fez a não ser abraça-la e dizer: “Foi bom enquanto durou”.
Por esta altura já tinha os seus vinte anos.
Continuava tudo na mesma. Frequentava parques e brincava com refeiros sem dar muito nas vistas. Num desses dias soalheiros, estava deitado no meio da relva crescida da primavera, sempre com a companhia de um rafeiro. Apreciava o aroma fresco e variado das incontáveis flores em festa. De súbito, um “está na hora” sussurrado, vindo dos seus lábios fez-se ouvir e de um momento para o outro desapareceu.
Minutos depois, um miúdo não mais que cinco anos, passava perto do local e avistou o rafeiro a dormir. Aproximou-se para lhe fazer festas e reparou num único dente-de-leão ao lado do cão. Arrancou-o e soprou para que as sementes voassem.
E assim ficaram, o miúdo e o rafeiro a contemplara a nuvem de sementes a dançar com a brisa e a dissipar-se.