deVolta

estou devolta a este meu canto de "pequenos felizes fins". Desta vez e de agora em diante, até a vontade mudar, irei publicar "pequenos" apontamento da minha grande história que tenho vindo a desenvolver.
inicialmente estes apontamentos podem não fazer nexo algum devido a serem ja algo avançados na narrativa.
não me vou dar ao trabalho de esclarecer tudo em cada apontamento que publicar devido a estes estarem esclarecidos na minha história final, ou então estarem em posteriores publicações ou ainda por não querer/haver uma explicação.
espero enfim que gostem.

31 December, 2009

Nado-morto

Um só, feito em duas partes. Yin e Yan, positivo e negativo, preto e branco; não haveria nada mais para além. Foi, finalmente, um sim que os uniu num laço comum, transformando assim no abraço primo do amor concretizado. Era feliz, a beijar-se, era completo a sentir-se, era amado a amar-se, as suas partes incompletas e disformes não faziam sombra ao seu brilho que além de invisível, ofuscava mais que luz solar, aquecia mais que ardente fogo, asfixiava mais que mortífero fumo.

Unos, finalizou-se o cinjo, e longamente se falou, se olhou, se beijou, se acarinhou, o recém-nascido até que suas partes se despediram para continuarem com suas mortais vidas.

Quando um de seus membros vira costas, nem o primeiro passo se realiza, sente esventrarem seu peito pelas costas. Sem respiração, chega a mão ao seu perfurado peito e torna-se para sua metade com seu coração ainda palpitante na sua mão ensanguentada.

“Porque?!” À medida que vais caindo de joelhos, a pergunta escapa-lhe entre seus lábios. Os seus olhos enchem-se de lágrimas, ela aperta seu coração e logo ele cai redondo no chão.

Ela vira costas e abala-se dali enquanto o corpo morto e o recém-nascido amputado chora.

02 November, 2009

Estação

1:50 - “vá lá, Foda-se! Tenho que conseguir!”
O metro parava na estação de Campanhã e por uma nesga das portas a abrir lentamente, saía a todo o gás, lançando-se para a outra ponta da estação (onde os comboios inter-cidades chagam e partem).
“Foda-se, Corre foda-se!!”
Era mesmo na linha 1, mesmo ali… que chegou com os bafos de fora, quase com asma, e viu o comboio a sair, simplesmente… chegara atrasado por quê? Segundos minutos?
“Merda! Merdamerdamerdamerda! F O D A – S E E E!” Ia andando às rodas a recuperar o fôlego e a suar que nem cavalo, amaldiçoando o metro por ser lento, o comboio por não esperar e a si por estar naquela situação.
Por fim, sentou-se ainda coma respiração por normalizar e sacou do telemóvel.
“Pá, n apanhei o comboio. Vou n proxim” *enviar*
Ficou à espera de uma resposta.
“Que é que lhe digo? Quando chegar a altura de dizermos adeus? Porquê que isto me acontece a mim? Estávamos tão bem… merda!”
Bzzzzz… bzzzzz….*mensagem recebida* “esta bem”
“Está bem?! Só isto? Merda, está chateada comigo… só foi um atraso! Nunca me tinha atrasado nos comboios! Oh, mais chatices para mim…”
Levantou-se e foi ao monitor ver quando é que tinha o próximo comboio: 4:55!? “Foda-se!”
Sentou-se novamente com uma cara de poucos amigos a olhar para nada em concreto.
“é a minha penitencia por ter chegado atrasado…”…”porque é que têm que acabar assim?... Eu… eu amo-a! Ou então amava-a… já não sei… depois de tudo que se passou… foi só numa semana, nem isso! Bastou uns 2 a 3 dias para desfazer tudo! O meu amor sólido por ela, afinal não era tão sólido… ou talvez seja mas, com a perda não o queira ver, ou então a dor ofusca-o.”
Desencosta-se do banco de espera e põe a mão a pressionar os olhos.
“Devia ter ajudado mais! Devia… devia sei lá! Ir até ao fim do mundo se pudesse… mas não posso… não posso… fiz tudo o que podia, ajudei-a a ter esperança mesmo quando já se sabia que iria embora… ajudei-a nas matriculas, nas candidaturas para a segunda fase, ajudei-a e tive a certeza… estava tão certo, Tão certo, de que conseguiria… desculpa… por te ter dado falsa esperança, por me ter dado falsa esperança. Fiquei tão transtornado…”
Pressionou os olhas húmidos e vermelhos e mordeu o lábio para não se desmanchar em lágrimas.
“… Estes dois anos. Dois anos que a amo. Um e meio declaradamente. Em que tanta coisa se passou. Só esperei uma coisa… uma respostas concreta. Uma simples frase, negativa ou positiva, bastava! Se calhar durante este tempo todo fui um estúpido, devia tê-la esquecido e continuar com a minha vida em frente. Mas não aconteceu, porque talvez, não podia ou porque não quis, era afinal aquela por quem o meu coração batia. Será que ela mereceu? Uma parte minha diz que sim e outra não. Desde longos tempos têm havido uma guerra dentro de mim. Os sins e os nãos, nunca um deles ganha, talvez porque estejam à espera duma resposta exterior… com simplesmente… oh que estupidez. É tão frustrante esta guerra interior, aliada à ânsia de sinais de qualquer género, corporais, verbais… que me provem o que ela não diz. E… que sinais que me tem dado, às vezes pergunto-me se terão sido más interpretações da minha fome de respostas.
Nada importa agora… dizem que a distância nada afecta, mas nós ainda nem separados estamos, já sinto-a a léguas de distancia…será que é destino? Os deuses não nos querem juntos, suponho, desde… desde o início talvez… quando o grande silêncio. Que estupidez, eu acreditar num destino assim… Não… Não aceito isto! Tem que haver uma hipótese, tem que haver!”
Levantou-se e foi comprar o bilhete às máquinas. Estava uma fila para a única de duas máquinas a funcionar e mesmo essas estava a irritar com a luzinha acesa a avisar da ausência de troco.
Com um suspiro de pouca paciência foi à banca principal pedir o bilhete com destino a Suzão
Tirado o bilhete olhou para o telemóvel, 3:28, “ainda dá tempo” e saiu da estação para o metro. “Tem de ficar cá… por favor…”
“Talvez sirva de remédio para o meu atraso, sim uma réstia de esperança talvez apazigúe a nossa tensão e quem sabe posso já ter respostas… ai se as tivesse, boas respostas que pusesse um fim a este pesadelo todo. Tenho que acreditar!”
Saiu no Campo onde com um passo apresado foi dar à porta de faculdade.”Foda-se! Que merda! Fechada, também que estúpido, só podia, é sábado fuck!”
Depois de várias voltas em desvario, com muitos suspiros em raiva e desespero lá voltou para o metro, desta vez sem grande pressa.
“Terei que desistir? Não desisti, já? Todo o meu esforço… que por um lado convenço-me que foi em demasia e por outro, algo me diz que não me esforcei… para quê pergunto-me. Por ela? Por mim? Por nós? Pelo amor que nutro por ela? Será mesmo amor, isto que me pulsa? Ou então um capricho, uma necessidade imediata de alguma coisa que me conforta ou de algo para o futuro, algo que nem eu sei o que é apenas o sinto, como uma coisa fora do meu controle consciente… será isto Amor? Estar disposto a fazer o que fiz, a esforçar em troco de quê? Um sentimento em retorno…Amor? Como se nem sei se o que sinto o é.
Invejo aqueles casais, ou melhor, invejo-me por ver naquele momentos, apenas naqueles momentos, em que casais simplesmente se abraçam, tem as mãos dadas ou então a maneira como se olham…momentos que sonho passar e pergunto-me se serei capaz de tais momentos, será ela capaz de tais momentos, seremos capazes, se por ventura ficássemos juntos, de tais momentos… até sou capaz de ver que ela me deu esses momentos de intimidade, ou algo muito parecido… mas… também me arrancou o coração já uma serie de vezes… nunca chegando a completar o que de mim construiu. E talvez assim se permaneça, criou-se em mim um certo cepticismo se alguma vez ela ou eu ou até nós se concretizará… aqueles momentos sem nenhuma destruição que os siga. Mas acho que isto é sonhar demais com sonhos que não se correspondem com a realidade. Lembro-me agora de uma vez… “cuidado que há muito mais como eu por ai, vê lá se não vês agora outra”… ela é assim tão má? E passado tanto tempo, mesmo agora ainda sinto um tensão involuntária no meu peito e na garganta ao pensar na situação que vivi na altura… “o teu namoro vai bem?”… se é para sofrer, então porque continuo ao pé dela? Se só me trás sofrimento, dor e frustração (“serei sempre a tua frustração”) porquê que ainda continuo ao lado dela? Nem sempre é assim, há momentos que não trocava por nada deste mundo. São momentos e, contudo, apenas momentos que com todas as incertezas não são o suficiente para manter a minha alma sossegada.
Sinto-me doente só de pensar nisto…”
O metro parava em Campanhã , olhou para o relógio, 3:40, “ vinte minutos para chegar o comboio…”
Bzzzzz… bzzzzz….*mensagem recebida* “de certeza que queres vir? depois fica muito tarde.”
“huh!? Que quer ela dizer com isto?”
“queres-m aí?” *enviar*
Bzzzzz… bzzzzz….*mensagem recebida* “tu é q sabes”
“foda-se, caralho, para ela me ter enviado estas mensagens é porque ela está-se completamente nas tintas se eu estou ao pé dela ou não, até mais, diria que não me quer lá…
Ou então está-me a dar uma oportunidade para ver se realmente gosto dela…
Tirou o bilhete do bolso e durante trinta segundos reteve o olhar no bilhete a ver muito para lá dele.
“Vou… não vou. Vou? Não vou?”

04 February, 2009

Escuridão

Estava escuro. Uma escuridão que poucos vêem. Escuro que não se vê, não se ouve… não existe, ou existe nada. Apenas a ausência de tudo. Estava a olhar para o negro, “cor” (única) da escuridão. Ainda pensava, em tudo o que acontecera, naquele instante antes do momento presente. Cor, luz, som, vibração, cheiros e gostos. Lembrava-me de tudo não por nostalgia, mas por um instinto físico e mental de dar uma continuidade lógica ao percurso temporal dos batimentos do meu coração. Mas agora era diferente. Não havia luz, cor, movimento, cheiro e paladar e som… ou havia?
No instante da escuridão, pareceu-me… estranho, quase incomodo, não ter uma continuidade, qualquer coisa que continuasse com os meus sentidos despertos. No entanto, … acho que por falta desses mesmos estímulos constantes, ao que me pareceu lenta e gradualmente, expandi-me para o vazio da escuridão envolvente. Reparei que, como droga, os sentidos ainda estavam a reagir, não por estímulos do momento mas por vagas recordações do passado. Ouvi um imperceptível assobio; ainda me cheirava ao perfume de tantas coisas; tinha um gosto peculiar na boca; via as silhuetas de formas estranhas e irreconhecíveis; sentia os músculos tensos do esforço físico, do movimento. Mentalizei que nada daquilo era verdade, não no momento, não na escuridão. Acalmei, harmonizei os sentidos ao ambiente actual e desapareceram, gradualmente. Deixei de cheirar, primeiro, já nem me lembrei que havia cheiro pois, na verdade, não havia, na escuridão. Assim também deixei de ver, de ouvir, de provar, de sentir… pois não havia nada para ser visto, para se ouvir, para se degustar, para se sentir… havia, somente, a escuridão… e eu. Mas o que era eu? Sem visão, sem olfacto, sem paladar, sem audição, sem tacto, sem sentido… era eu?
Havia qualquer coisa, sim, mas não era pensamentos, pois esses são encadeamentos lógicos que provêem do passado para o presente e, possivelmente, para o futuro. Era uma presença no vazio, imaterial. A minha presença, que se reduzia a nada no escuro.
No escuro, nada marca presença, tudo tornasse ausente de qualquer sentido de importância matéria ou existência. Escuro que tudo reduz ao seu semelhante, sem preocupação por quem ou o que engole. É um buraco negro de toda existêncialidade, do caos e da harmonia. Nada é na escuridão nem nada deixa de ser. É, sim, escuridão.
Foi assim que em nada me tornei e permaneci, apenas com uma decrescente consciência de que ainda existia, não sabendo já que tipo de existência era.
… Foi assim, quando o fio da consciência se perdeu, que me desmaterializei. Todos os meus sentidos, todos os meus pensamentos, prazeres e sofrimentos, virtudes e defeitos, desilusões e orgulhos… tudo, o que me faz o fui, sumiu.



Até que se acende uma luz e a escuridão desaparece. Volto a haver e a ser. Voltam os meus sentidos, os meus pensamentos, prazeres e sofrimentos, virtudes e defeitos, desilusões e orgulhos, volta tudo a mim. Acordo para ser eu. Acordo com e pelos sentidos, por causa da luz que se acendeu. Luz amarela, da minha mesinha de cabeceira. Luz, que se acendeu pela mão de uma face querida que, agora, sorria para mim, deitada a meu lado.