deVolta

estou devolta a este meu canto de "pequenos felizes fins". Desta vez e de agora em diante, até a vontade mudar, irei publicar "pequenos" apontamento da minha grande história que tenho vindo a desenvolver.
inicialmente estes apontamentos podem não fazer nexo algum devido a serem ja algo avançados na narrativa.
não me vou dar ao trabalho de esclarecer tudo em cada apontamento que publicar devido a estes estarem esclarecidos na minha história final, ou então estarem em posteriores publicações ou ainda por não querer/haver uma explicação.
espero enfim que gostem.

04 February, 2009

Escuridão

Estava escuro. Uma escuridão que poucos vêem. Escuro que não se vê, não se ouve… não existe, ou existe nada. Apenas a ausência de tudo. Estava a olhar para o negro, “cor” (única) da escuridão. Ainda pensava, em tudo o que acontecera, naquele instante antes do momento presente. Cor, luz, som, vibração, cheiros e gostos. Lembrava-me de tudo não por nostalgia, mas por um instinto físico e mental de dar uma continuidade lógica ao percurso temporal dos batimentos do meu coração. Mas agora era diferente. Não havia luz, cor, movimento, cheiro e paladar e som… ou havia?
No instante da escuridão, pareceu-me… estranho, quase incomodo, não ter uma continuidade, qualquer coisa que continuasse com os meus sentidos despertos. No entanto, … acho que por falta desses mesmos estímulos constantes, ao que me pareceu lenta e gradualmente, expandi-me para o vazio da escuridão envolvente. Reparei que, como droga, os sentidos ainda estavam a reagir, não por estímulos do momento mas por vagas recordações do passado. Ouvi um imperceptível assobio; ainda me cheirava ao perfume de tantas coisas; tinha um gosto peculiar na boca; via as silhuetas de formas estranhas e irreconhecíveis; sentia os músculos tensos do esforço físico, do movimento. Mentalizei que nada daquilo era verdade, não no momento, não na escuridão. Acalmei, harmonizei os sentidos ao ambiente actual e desapareceram, gradualmente. Deixei de cheirar, primeiro, já nem me lembrei que havia cheiro pois, na verdade, não havia, na escuridão. Assim também deixei de ver, de ouvir, de provar, de sentir… pois não havia nada para ser visto, para se ouvir, para se degustar, para se sentir… havia, somente, a escuridão… e eu. Mas o que era eu? Sem visão, sem olfacto, sem paladar, sem audição, sem tacto, sem sentido… era eu?
Havia qualquer coisa, sim, mas não era pensamentos, pois esses são encadeamentos lógicos que provêem do passado para o presente e, possivelmente, para o futuro. Era uma presença no vazio, imaterial. A minha presença, que se reduzia a nada no escuro.
No escuro, nada marca presença, tudo tornasse ausente de qualquer sentido de importância matéria ou existência. Escuro que tudo reduz ao seu semelhante, sem preocupação por quem ou o que engole. É um buraco negro de toda existêncialidade, do caos e da harmonia. Nada é na escuridão nem nada deixa de ser. É, sim, escuridão.
Foi assim que em nada me tornei e permaneci, apenas com uma decrescente consciência de que ainda existia, não sabendo já que tipo de existência era.
… Foi assim, quando o fio da consciência se perdeu, que me desmaterializei. Todos os meus sentidos, todos os meus pensamentos, prazeres e sofrimentos, virtudes e defeitos, desilusões e orgulhos… tudo, o que me faz o fui, sumiu.



Até que se acende uma luz e a escuridão desaparece. Volto a haver e a ser. Voltam os meus sentidos, os meus pensamentos, prazeres e sofrimentos, virtudes e defeitos, desilusões e orgulhos, volta tudo a mim. Acordo para ser eu. Acordo com e pelos sentidos, por causa da luz que se acendeu. Luz amarela, da minha mesinha de cabeceira. Luz, que se acendeu pela mão de uma face querida que, agora, sorria para mim, deitada a meu lado.

3 comments:

Laura Ferreira said...

Um elogia perfeito aos sentidos, aos nossos tantos "eus". Lindo, lindo, lindo...

Laura Ferreira said...

sorry, o que eu queria escrever era "elogio" e não "elogia"...

Anonymous said...

por muito negra que seja a escuridão, uma luz por muito pequena que seja brilhara sempre.