1:50 - “vá lá, Foda-se! Tenho que conseguir!”
O metro parava na estação de Campanhã e por uma nesga das portas a abrir lentamente, saía a todo o gás, lançando-se para a outra ponta da estação (onde os comboios inter-cidades chagam e partem).
“Foda-se, Corre foda-se!!”
Era mesmo na linha 1, mesmo ali… que chegou com os bafos de fora, quase com asma, e viu o comboio a sair, simplesmente… chegara atrasado por quê? Segundos minutos?
“Merda! Merdamerdamerdamerda! F O D A – S E E E!” Ia andando às rodas a recuperar o fôlego e a suar que nem cavalo, amaldiçoando o metro por ser lento, o comboio por não esperar e a si por estar naquela situação.
Por fim, sentou-se ainda coma respiração por normalizar e sacou do telemóvel.
“Pá, n apanhei o comboio. Vou n proxim” *enviar*
Ficou à espera de uma resposta.
“Que é que lhe digo? Quando chegar a altura de dizermos adeus? Porquê que isto me acontece a mim? Estávamos tão bem… merda!”
Bzzzzz… bzzzzz….*mensagem recebida* “esta bem”
“Está bem?! Só isto? Merda, está chateada comigo… só foi um atraso! Nunca me tinha atrasado nos comboios! Oh, mais chatices para mim…”
Levantou-se e foi ao monitor ver quando é que tinha o próximo comboio: 4:55!? “Foda-se!”
Sentou-se novamente com uma cara de poucos amigos a olhar para nada em concreto.
“é a minha penitencia por ter chegado atrasado…”…”porque é que têm que acabar assim?... Eu… eu amo-a! Ou então amava-a… já não sei… depois de tudo que se passou… foi só numa semana, nem isso! Bastou uns 2 a 3 dias para desfazer tudo! O meu amor sólido por ela, afinal não era tão sólido… ou talvez seja mas, com a perda não o queira ver, ou então a dor ofusca-o.”
Desencosta-se do banco de espera e põe a mão a pressionar os olhos.
“Devia ter ajudado mais! Devia… devia sei lá! Ir até ao fim do mundo se pudesse… mas não posso… não posso… fiz tudo o que podia, ajudei-a a ter esperança mesmo quando já se sabia que iria embora… ajudei-a nas matriculas, nas candidaturas para a segunda fase, ajudei-a e tive a certeza… estava tão certo, Tão certo, de que conseguiria… desculpa… por te ter dado falsa esperança, por me ter dado falsa esperança. Fiquei tão transtornado…”
Pressionou os olhas húmidos e vermelhos e mordeu o lábio para não se desmanchar em lágrimas.
“… Estes dois anos. Dois anos que a amo. Um e meio declaradamente. Em que tanta coisa se passou. Só esperei uma coisa… uma respostas concreta. Uma simples frase, negativa ou positiva, bastava! Se calhar durante este tempo todo fui um estúpido, devia tê-la esquecido e continuar com a minha vida em frente. Mas não aconteceu, porque talvez, não podia ou porque não quis, era afinal aquela por quem o meu coração batia. Será que ela mereceu? Uma parte minha diz que sim e outra não. Desde longos tempos têm havido uma guerra dentro de mim. Os sins e os nãos, nunca um deles ganha, talvez porque estejam à espera duma resposta exterior… com simplesmente… oh que estupidez. É tão frustrante esta guerra interior, aliada à ânsia de sinais de qualquer género, corporais, verbais… que me provem o que ela não diz. E… que sinais que me tem dado, às vezes pergunto-me se terão sido más interpretações da minha fome de respostas.
Nada importa agora… dizem que a distância nada afecta, mas nós ainda nem separados estamos, já sinto-a a léguas de distancia…será que é destino? Os deuses não nos querem juntos, suponho, desde… desde o início talvez… quando o grande silêncio. Que estupidez, eu acreditar num destino assim… Não… Não aceito isto! Tem que haver uma hipótese, tem que haver!”
Levantou-se e foi comprar o bilhete às máquinas. Estava uma fila para a única de duas máquinas a funcionar e mesmo essas estava a irritar com a luzinha acesa a avisar da ausência de troco.
Com um suspiro de pouca paciência foi à banca principal pedir o bilhete com destino a Suzão
Tirado o bilhete olhou para o telemóvel, 3:28, “ainda dá tempo” e saiu da estação para o metro. “Tem de ficar cá… por favor…”
“Talvez sirva de remédio para o meu atraso, sim uma réstia de esperança talvez apazigúe a nossa tensão e quem sabe posso já ter respostas… ai se as tivesse, boas respostas que pusesse um fim a este pesadelo todo. Tenho que acreditar!”
Saiu no Campo onde com um passo apresado foi dar à porta de faculdade.”Foda-se! Que merda! Fechada, também que estúpido, só podia, é sábado fuck!”
Depois de várias voltas em desvario, com muitos suspiros em raiva e desespero lá voltou para o metro, desta vez sem grande pressa.
“Terei que desistir? Não desisti, já? Todo o meu esforço… que por um lado convenço-me que foi em demasia e por outro, algo me diz que não me esforcei… para quê pergunto-me. Por ela? Por mim? Por nós? Pelo amor que nutro por ela? Será mesmo amor, isto que me pulsa? Ou então um capricho, uma necessidade imediata de alguma coisa que me conforta ou de algo para o futuro, algo que nem eu sei o que é apenas o sinto, como uma coisa fora do meu controle consciente… será isto Amor? Estar disposto a fazer o que fiz, a esforçar em troco de quê? Um sentimento em retorno…Amor? Como se nem sei se o que sinto o é.
Invejo aqueles casais, ou melhor, invejo-me por ver naquele momentos, apenas naqueles momentos, em que casais simplesmente se abraçam, tem as mãos dadas ou então a maneira como se olham…momentos que sonho passar e pergunto-me se serei capaz de tais momentos, será ela capaz de tais momentos, seremos capazes, se por ventura ficássemos juntos, de tais momentos… até sou capaz de ver que ela me deu esses momentos de intimidade, ou algo muito parecido… mas… também me arrancou o coração já uma serie de vezes… nunca chegando a completar o que de mim construiu. E talvez assim se permaneça, criou-se em mim um certo cepticismo se alguma vez ela ou eu ou até nós se concretizará… aqueles momentos sem nenhuma destruição que os siga. Mas acho que isto é sonhar demais com sonhos que não se correspondem com a realidade. Lembro-me agora de uma vez… “cuidado que há muito mais como eu por ai, vê lá se não vês agora outra”… ela é assim tão má? E passado tanto tempo, mesmo agora ainda sinto um tensão involuntária no meu peito e na garganta ao pensar na situação que vivi na altura… “o teu namoro vai bem?”… se é para sofrer, então porque continuo ao pé dela? Se só me trás sofrimento, dor e frustração (“serei sempre a tua frustração”) porquê que ainda continuo ao lado dela? Nem sempre é assim, há momentos que não trocava por nada deste mundo. São momentos e, contudo, apenas momentos que com todas as incertezas não são o suficiente para manter a minha alma sossegada.
Sinto-me doente só de pensar nisto…”
O metro parava em Campanhã , olhou para o relógio, 3:40, “ vinte minutos para chegar o comboio…”
Bzzzzz… bzzzzz….*mensagem recebida* “de certeza que queres vir? depois fica muito tarde.”
“huh!? Que quer ela dizer com isto?”
“queres-m aí?” *enviar*
Bzzzzz… bzzzzz….*mensagem recebida* “tu é q sabes”
“foda-se, caralho, para ela me ter enviado estas mensagens é porque ela está-se completamente nas tintas se eu estou ao pé dela ou não, até mais, diria que não me quer lá…
Ou então está-me a dar uma oportunidade para ver se realmente gosto dela…
Tirou o bilhete do bolso e durante trinta segundos reteve o olhar no bilhete a ver muito para lá dele.
“Vou… não vou. Vou? Não vou?”
02 November, 2009
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3 comments:
E foi?
Lindo, adorei.
Cheio de movimento, vento, expresão...
não vás.
vai, mas nao vas.
vai, mas vem ter comigo, eu que te espero.
Muito bom, Nico! Paradoxos do amor ou da ilusao amorosa, que já camoes cantou tao bem, postos num texto cheio de ritmo e emoção!
marisa
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