Numa
noite em breu, onde o escuro azul se dissolve com a cegueira negra,
de mãos laçadas, o par de silhuetas corre com a dianteira a
arrastar a traseira. Correm, a fugir ou atrás, apenas iluminados por
uma periclitante aura, originada por débil luz, segura pela mão da
vanguarda, traidora de meros passos dados para ocultar os passos
passados.
Correm,
enclausurados pela constante ameaça do sombrio oblívio, guiados
apenas com réstias de cinzas formas que pairam por cima das suas
cabeças. Réstias que, num dia seriam árvores e natureza viva,
agora não mais eram do que fantasmagóricas aparições sem forma ou
corpo, apenas sombra e volume, que tão depressa eram como não. Mas
pouca importância tinham tais fenómenos para o par, tal era o
empenho em manter-se unido e são. A atenção mantinha-se no
arraigado caminho que se desenvolvia meros segundos de lhe pisarem o
castanho solo, produzindo pequenas e poeirentas nuvens que pairavam
atrás dos seus calcanhares antes de serem consumidas pelo negrume da
noite. Esse mesmo negro, pressionava-os a correr, a acelerar o passo,
tal o impulso, tal a exaltação de chegar ao fim. Cada vez mais
instáveis, as silhuetas correm na tentativa de manter o passo nas
traiçoeiras voltas do caminho que a aura revela.
Lentamente,
em meros segundos, a dianteira sente a falta de algo, de uma
presença, da forma que a sua mão segurava. Agora era apenas o nada
que apanhava.
Abismada,
confusa e perdida, acalma o passo para um trote com a sua luz a
tilintar, no limiar, as escuras formas que ganham corpo em todo o seu
redor. O receio cresce e a dúvida instala-se, chama-a para um preto
vazio, surdo e mudo, mas nunca volta para trás. Perdida, mesmo que
quisesse, não saberia onde fica o trás ou o frente, o norte ou o
sul, o cima ou o baixo, mas nunca para o passo. A solidão incha com
as dúvidas, cada vez mais, a pesarem e a sua aura devagarinho minga,
mas algo desconhecido a faz avançar sem nunca olhar para trás. A
periclitante luz, já sem brilho, por fim escurece e para lá
disso... ninguém sabe. Só .
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